Roteiro de Sommelier Internacional e Amigas: Vinhos, Aventuras, Risadas e o Encanto da Serra Gaúcha

Viajar com amigas é sempre uma celebração. Quando o motivo é colocar o Brasil na taça, então, vira manifesto. Fomos em cinco, eu, sommelier internacional, e quatro amigas curiosas e apaixonadas por vinho para um giro enxuto pelas vinícolas entre Garibaldi e Bento Gonçalves. Fim de setembro nos recebeu com céu indeciso: momentos de sol, algumas nuvens dramáticas e um tiquinho de chuva que não atrapalhou, só mudou o ritmo (e rendeu fotos lindas). Foram cinco dias de vinhos, conversas e descobertas,  do terroir ao brinde na cachoeira.

Por que Escolhemos Garibaldi como Base

Garibaldi foi nossa base por três motivos simples e certeiros: ótimo custo-benefício, logística redondinha entre Pinto Bandeira e Bento Gonçalves e aquele clima de cidade pequena com alma de espumante que conquista de primeira. Ficamos no Dall’Onder Ski Hotel, que surpreendeu pelo combo conforto e praticidade: quartos aconchegantes, café da manhã caprichado, equipe atenciosa e uma piscina aquecida impecável, virou nosso “spa” diário para alongar as pernas e colocar as conversas em dia. 

O spa é simples, mas eficiente: água na temperatura certa, ambiente limpo e silencioso, perfeito para desacelerar depois das degustações. A verdade é que nos divertimos tanto ali que precisou rolar uma missão extra: atravessamos até Bento Gonçalves para comprar biquínis, porque ninguém tinha lembrado de levar. Entre gargalhadas e sacolas, voltamos no fim da tarde para mais um mergulho e brindes sem hora para acabar. 

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Para garantir segurança e conforto nos deslocamentos, contratamos uma van com motorista,  liberdade para aproveitar as taças com tranquilidade. As distâncias curtinhas (de 15 a 40 minutos) fizeram o roteiro render sem pressa: saíamos cedo, voltávamos no tempo de um mergulho e, à noite, era só deixar Garibaldi nos embalar. No fim, a cidade se provou o equilíbrio perfeito entre preço, praticidade e charme borbulhante , exatamente o que buscávamos para um enoturismo leve e feliz no Vale dos Vinhedos.

Dica Prática

  • Reserve degustações com antecedência, especialmente Cave Geisse e Luiz Argenta.
  • Traga capa leve/guarda-chuva: a serra pode alternar sol e garoa no mesmo dia.
  • Sapato confortável e que não escorregue (para trilhas ou pisos molhados pós-chuva).

Dia 1 — Flores da Cunha: Almoço Panorâmico na Luiz Argenta + Laranja na Taça na Viapiana

Começamos com a estrada rumo a Flores da Cunha e, na chegada, a Luiz Argenta impôs presença: arquitetura contemporânea que parece pousar entre os vinhedos e um restaurante panorâmico que transforma a paisagem em palco de estreia. 

Iniciamos nosso tour na Luiz Argenta pela degustação guiada, que apresentou a proposta da casa e ainda trouxe uma surpresa que prefiro guardar, só vivendo para entender. Em seguida, descemos para a visita à cantina, percorrendo tanques e barricas para compreender, etapa por etapa, como nascem os vinhos tranquilos. Fechamos no restaurante panorâmico, com um almoço sem pressa e uma vista de tirar o fôlego, concluindo a passagem pela vinícola com sensação de começo bem escolhido e a energia certa para o restante do dia.

A tarde foi da Viapiana, uma vinícola que combina acolhimento com curiosidade técnica. Eles apresentaram a proposta da vinícola e contextualizaram a história da família e das linhas produzidas. A degustação foi guiada, didática sem ser engessada, e abriu espaço para uma experiência que adoro apresentar em aula: o vinho laranja, um vinho muito particular. Ver as amigas descobrindo camadas de chá, casca de cítrico e taninos finos em um branco de maceração é como assistir a um “ahá!” coletivo. Brindamos a isso, claro. 

Para Lembrar:

  • Luiz Argenta: almoço panorâmico inesquecível; reservar janela se possível.
  • Viapiana: peça para incluir o laranja na prova, é conversa garantida.

Dia 2 — Pinto Bandeira: Trilha 4×4 e Brinde na Cachoeira na Cave Geisse + Terraço, Churchill e Cabernet Franc na Valmarino

Pinto Bandeira tem uma energia que conquista na chegada, com altitude que refresca, brisa constante e vinhedos de encosta que ajudam a entender por que a região virou referência em espumantes pelo método tradicional. O cenário alterna vales e colinas cobertas de verde e cria um ritmo próprio para quem visita, um convite a desacelerar e observar os detalhes do terroir. Essa combinação de clima, solo e amplitude térmica molda a experiência e prepara o espírito para um dia de estrada, trilha e taças bem aproveitadas.

Fomos cedo à Cave Geisse para a experiência 4×4 que começa por dentro da mata fechada, com a trilha estreita, sombra úmida e o som da água indicando que a cachoeira está próxima. De repente, paramos diante da queda d’água e ali mesmo abrimos o primeiro espumante para um brinde que marcou o início da experiência. A alegria tomou conta e nasceu uma dancinha espontânea, risadas e fotos com a cortina de água ao fundo. Depois seguimos pela estrada de terra em direção aos campos cultivados e, ao sair da mata, os vinhedos aparecem de forma majestosa, ocupando as encostas e desenhando o horizonte. Fizemos uma nova parada para o segundo brinde, desta vez contemplando a paisagem dos parreirais e emendando um bate-papo leve e feliz, daqueles que deixam a sensação de que o tempo passa mais devagar.

De lá seguimos para a Valmarino, onde o terraço parece uma sala de estar ao ar livre, com vista ampla para as encostas e um silêncio pontuado pelo vento. Começamos pela linha Churchill, espumantes de método tradicional que chegam à taça com elegância, bolha fina e camadas que se revelam aos poucos, daqueles rótulos que seguram a conversa e pedem mais um gole enquanto a paisagem muda de luz. Depois veio o Cabernet Franc, que ganhou o grupo sem esforço, unindo precisão e frescor a uma estrutura afinada que preenche a boca com naturalidade e convida a permanecer mais tempo à mesa. Ficamos ali entre risos e fotos, o sol de setembro driblando as nuvens e aquecendo o rosto, com a sensação de ter encontrado um lugar em que a vista, o serviço e as taças trabalham em harmonia para criar uma lembrança que fica.

Dica de Ouro:

  • Trilha na Cave Geisse: Em dias úmidos, vá com capa leve e tênis com boa aderência para aproveitar a trilha 4×4 com conforto e segurança.
  • Valmarino com vista: Se o clima estiver favorável, não perca a oportunidade de fazer a degustação no terraço da Valmarino.

Dia 3 — Vale dos Vinhedos: Tradição Familiar na Don Laurindo e Elegância Precisa e Orgulho do Vinho Brasileiro na Almaúnica

Terceiro dia, ritmo mais solto: na Don Laurindo deixamos o relógio no bolso e nos deixamos guiar por uma degustação conduzida com calma, harmonizada com queijos que realçavam cada taça, começamos por um espumante bem seco que limpou o paladar, passamos por um branco de fruta fresca e mineralidade sutil e chegamos aos tintos de taninos polidos, daqueles que pedem conversa baixa e goles atentos; entre uma explicação e outra sobre os vinhedos e o jeito de fazer, a vista para as parreiras e o clima acolhedor do wine bar fizeram tudo parecer mais simples, mais bonito e exatamente no tempo certo.

Depois seguimos para a Almaúnica, onde a arquitetura limpa e silenciosa parece afinar o olhar e o paladar; no salão banhado de luz, as taças chegam com precisão e o Quatro Castas aparece como um velho conhecido. Bastou o primeiro gole para puxar a lembrança de quando eu morava na Itália. Naquela época, recebi o Almaúnica Quatro Castas de um aluno brasileiro que foi me visitar e decidi levá-lo para uma das nossas rodas de avaliação com amigos sommeliers. Colocamos lado a lado com um californiano famoso e, para surpresa geral, por unanimidade o brasileiro ficou em primeiro, e eu senti aquele orgulho quente no peito. Ali, entre linhas retas, serviço atencioso e vinhos que respiram equilíbrio, a sensação voltou e eu só quis brindar ao que é bem feito por aqui, sem pressa, só curtindo o momento, os vinhos e as amigas.

Se Chover:

  • Opções em ambientes internos: Don Laurindo e Almaúnica são ótimas escolhas para dias chuvosos, com experiências e degustações predominantemente em espaços fechados.
  • Prepare-se para o clima: Leve sempre uma echarpe ou casaco leve para se proteger do ar-condicionado ou do vento característico da serra.

Dia 4 — Entre História Viva, Harmonizações e a Força do Cooperativismo: Dal Pizzol e Vinícola Aurora

O quarto dia começou dedicado à Dal Pizzol, uma vinícola que é quase um parque temático do vinho no melhor sentido: árvores, lagos, o famoso “vinhedo do mundo” com castas de vários países. É um passeio que agrada perfis diferentes, quem quer aprender, quem quer fotografar, quem quer só caminhar entre as histórias. Foi lá que mergulhamos em uma experiência sensorial de harmonização de vinhos com chocolate. A combinação que ganhou o meu coração foi a de espumante com chocolate branco: a doçura e a textura do chocolate abraçam a acidez e as bolhas com um equilíbrio espetacular, para variar o mundo dos vinhos sempre me surpreende. Além dessa, exploramos vinhos tintos harmonizados com diferentes tipos de chocolate, mostrando a versatilidade e a riqueza dessa combinação.

No período da tarde, partimos para a Vinícola Aurora. Uma das maiores e mais renomadas cooperativas do Brasil, a Aurora oferece tours guiados que detalham todo o processo de elaboração dos vinhos e espumantes, desde a chegada da uva até o engarrafamento. É uma jornada fascinante que revela a escala da produção e a força do cooperativismo. Visitar uma vinícola desse porte nos permitiu compreender o impacto e a estrutura da vitivinicultura em grande escala no país.

Dica Prática:

  • Dal Pizzol: Dedique tempo para explorar o vasto espaço e desfrutar das experiências temáticas e harmonizações sem pressa.
  • Vinícola Aurora: Aproveite o tour para aprofundar seu conhecimento sobre o processo industrial e o cooperativismo na produção de vinhos em grande escala.

Dia 5 — De brinde em brinde: Don Guerino no caminho para Gramado e Canela

No último dia da nossa aventura, após arrumarmos as malas com calma e separarmos os rótulos que cada uma queria levar para casa, aproveitamos que estávamos a caminho de Gramado e Canela para fazer uma parada estratégica que não poderíamos perder: a Vinícola Don Guerino, em Alto Feliz. Situada na encosta da Serra Gaúcha, essa vinícola se destaca por sua produção de espumantes muito bem executados e brancos vibrantes que traduzem o clima da região, oferecendo um fechamento leve e arejado para nossa imersão no mundo dos vinhos.

A experiência na Don Guerino foi ainda mais marcante no deck da vinícola, que proporciona uma vista panorâmica de tirar o fôlego para os vinhedos que se estendem pelas colinas, um dos visuais mais comentados e impactantes da Serra Gaúcha. De lá, brindamos à precisão técnica, ao frescor e à identidade que encontramos em cada taça, sintetizando tudo o que buscamos na viagem. Deixamos a Don Guerino com a imagem estonteante dos vinhedos ainda na mente, e seguimos viagem em direção às charmosas cidades de Gramado e Canela, prontas para explorar um novo capítulo da Serra Gaúcha, levando conosco as ricas histórias e as memórias inesquecíveis que cada brinde nos proporcionou.

Dica Prática:

  • Parada estratégica: Inclua a Don Guerino no seu roteiro como uma pausa perfeita entre o Vale dos Vinhedos e o caminho para Gramado/Canela.
  • Vista panorâmica: Reserve um tempo para apreciar o deck da vinícola, o visual dos vinhedos é imperdível.

Cinco dias, nove paradas, e uma constatação que transcende o paladar: viajar com amigas é transformar cada gole em celebração, cada risada em melodia e cada paisagem em um cartão-postal eterno. Nosso planejamento meticuloso foi apenas o mapa para um tesouro de momentos inesquecíveis, onde o vinho, entre cachoeiras borbulhantes na Cave Geisse, terraços com vistas que roubam o fôlego na Don Guerino, jardins vibrantes da Dal Pizzol e a arquitetura imponente de vinícolas como a Luiz Argenta, ganhou um sabor indescritível, o sabor de compartilhar, da cumplicidade e da pura alegria.

Cada taça degustada, da acidez vibrante de um espumante ao tinto encorpado sob o pôr do sol, ou à harmonização surpreendente de chocolate e vinho, não foi apenas uma experiência sensorial, mas um capítulo em nossa história coletiva, pontuado por gargalhadas espontâneas e descobertas compartilhadas que aquecem a alma. O Vale dos Vinhedos e seus arredores não apenas convidam a conhecer o Brasil pela taça, mas a criar memórias que se entranham na alma e nos fazem sonhar com o próximo encontro.

Então, se a ideia de brindar à amizade enquanto se deleita com as maravilhas do enoturismo gaúcho te seduz, guarde este roteiro, adapte-o ao seu ritmo e, acima de tudo, não hesite em reservar seu lugar à mesa. Porque, no fim das contas, a taça que espera por você é a mesma que guardará infinitas histórias e risadas. 🍷

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10 Comentários

    1. Amiga, feliz de relançar meu blog com nossas aventuras. Essa viagem foi inesquecível, a companhia de vocês fenomenal! Love you too.

  1. Uma das melhores viagens da vida! Roteiro impecável, experiências inesquecíveis e muitas memórias maravilhosas. Super recomendo essa aventura. Iapo amiga, you are the best 🥰

    1. Concordo que foi uma das melhores viagens que eu fiz, ainda mais na companhia de vocês!!! Partindo agora para uma nova etapa profissional ou melhor retomando. Esse post foi feito de coração e coloquei todas as emoções que vivemos juntas… Lembrei de vários momentos e principalmente das muitas risadas que demos! Love you…

  2. Iapo, parabéns pela sensibilidade e sutileza para descrever a viagem. Se não fossem as dicas, que ficaram ótimas, diria estar lendo um conto!
    Parabéns pelo roteiro, escolha das vinícolas e vinhos degustados!

    1. Obrigada! Lembrando que uma das dicas foi sua… A vinícola Valmarino que nós adoramos!! Super afim de repetir com amigos e quem sabe em breve novos roteiros…
      Amo vinhos e amo viajar, essa combinação é espetacular.

  3. Puxa, q roteiro!!! Sensacional!!! Muito bem escolhido e planejado…
    Q viagem!!! Espetacular!!! Viajar com amigos é sempre ótimo… viajar com “novos amigos” tb é espetacular… viajar com estranhos tb… kkkkk … ou seja, viajar é sempre ótimo!!! …e por vinícolas, deve ser um espetáculo… e viajar com vc é diversão garantida… 😘
    O texto impecável, muito bem escrito, e gostoso de ler… até parece q eu estava la com vcs…
    Aliás, deu vontade de fazer essa viagem!!!
    Bora?!?! É viagem pra repetir várias vezes… quero saber daquela “surpresa” q vc não contou…😉
    É isso!!! Parabéns pelo blog, pelo texto, pelas fotos e por passar sua forma agradável de ver as coisas…
    Sucesso!!!

    1. Amei o comentário! ❤️❤️
      Bora fazer essa viagem? Super topo repetir… quem sabe com um grupo de amigos ou até mesmo de estranhos… rsrsrs
      Podemos fazer novos roteiros…sempre com diversão garantida 😍 Mendoza?? Chile?? Uruguai?? Ou quem sabe dar um pulinho no velho mundo!
      A surpresa te conto no privado. ❤️
      😘😘

  4. Teacher amada… quantos sentimentos e emoções lindas vividas e a nós repassadas!!!👏🏻🔝
    Viajei e me senti lá com vocês…😉
    Muito bom te rever com toda essa garra e energia renovadas!🙏🏻
    Momentos assim só reforçam que, a vida é bela simmmm!!👏🏻
    Compartilhar viagens com amigas/os dá-nos a certeza que nunca estaremos sós… pois por mais dificuldades que passemos, sempre haverá um amigo que nos estenderá a mão!🙏🏻
    Feliz de coração em fazer parte dessa sua mudança de vida e torcendo para as “surpresas” que virão!!🔝👌🏻🥰😘
    Fique com Deus e sucessoooo!!🙏🏻😘

    1. Oi Marcia, que mensagem mais linda! ❤️ Fiquei emocionada aqui…
      Que delícia saber que você ‘viajou’ junto comigo lendo o post!
      É exatamente isso que eu queria transmitir…
      E você disse tudo: a vida é bela demais e ter amigos por perto faz toda a diferença.
      Saber que tenho sua torcida nessa nova fase me dá ainda mais energia!
      Obrigada pelo carinho de sempre!
      Continua aqui comigo acompanhando tudo, porque vem muita coisa boa por aí pra gente curtir e brindar juntas! 🙏🏻🍷
      Beijo grande!

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